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6/03/2017

COM A PALAVRA, O PESCADOR

Tiago Martins e o pescador Dinizarte Silva Filho, na Praia da Tainha, em Bombinhas-SC

Projeto Informar verifica a existência de tubarões e raias na Baía de Tijucas, ouvindo e sensibilizando o homem do mar. Até 100 pescadores serão entrevistados nos municípios de Bombinhas, Governador Celso Ramos, Porto Belo e Tijucas.

Por William Wollinger Brenuvida, jornalista

Canoas bordadas, pirogas ou de canoa de um pau só. Tradição milenar.
Emparelhadas na praia da Tainha ou no Mariscal, no mar de fora do Canto Grande, ou na enseada de Zimbros, as canoas bordadas disputam palmo a palmo de areia com as embarcações de boca larga, os botes de popa chapada, como dizem os pescadores mais antigos de Bombinhas. Naquele que é considerado o menor município catarinense, Bombinhas é, dos quatro municípios que compõem a Baía de Tijucas, aquele que reúne o maior número de canoas bordadas, as canoas de um pau só, de garapuvu, que os indígenas guarani-mbya chamavam de pirogas. O ensinamento para pesca, aliás, veio nessas embarcações, com os imigrantes açorianos e madeirenses aprendendo e desafiando o mar, para muito além das ilhas que compõem o arquipélago da Grande Florianópolis e Costa Esmeralda, em busca dos mais variados tipos de cações e raias.

Aos 66 anos de idade, rugas do tempo, rosto amorenado dos dias de sol, o corpo curvo se dá para o chumbo preso na rede de malha da mesma forma que o vento de leste ainda faz soprar no mar da Praia da Tainha. As canoas bordadas permanecem na praia. Cadê as tainhas? Pergunta uma voz rouca, assentada nas redondilhas de esses e erres sem pontos e vírgulas, do pescador aposentado Dinizarte Casimiro Silva Filho. Nascido em uma família de nove irmãos, o pai foi pescador e a mãe cuidou de todos eles.  Após muitos anos de mar, a pesca para ele é coisa de domingo, como nos Açores, terra dos antepassados dele que vieram a partir de 1748. A experiência de Dinizarte, porém, é incontestável na Praia da Tainha, também em Ganchos, do outro lado baía, onde ele lembra mais de vinte nomes com quem pescou em mais de 40 anos de mar. Ele se considera um “camarada” e não patrão, termo que designa o regime dos camaradas que vigorou na região no século XX. Pescou cação? Perguntamos. Pesquei pouco! Ele responde. No que ele arremata: A pesca do cação, aqui, sempre foi a mais perigosa. Fui pra ver como era. E até hoje fico me perguntando como se pescava daquele jeito, sem qualquer proteção, sem equipamento, podendo morrer sem recurso. Mas, não se morre no mar de qualquer modo? Perguntamos. Morrer, morre. Você vai aí, milhas e milhas, três ou quatro dias de casa, e mar não é igual a terra. Mas, é preciso ter condições pra pescar. Antigamente, não tinha motor, e a gente remava muito. Hoje, temos mais recursos. Dinizarte olha o mar que se agiganta, que na Tainha encontra parte da Ilha do Arvoredo.

Projeto Informar busca interação com pescadores
Desde que as pesquisas do Projeto Informar: tubarões e raias, financiado pelo
Rafael e o avô João, de Canto dos Ganchos
Instituto Linha D’Água de São Paulo, começaram em fevereiro deste ano, os pesquisadores do Comitê de Gerenciamento das Bacias Hidrográficas dos Rios Tijucas e Biguaçu, e bacias contíguas já entrevistaram mais de 75 pescadores, nos municípios de Bombinhas, Governador Celso Ramos e Tijucas. O projeto ainda alcança o município de Porto Belo que possui, pelo menos, duas importantes localidades pesqueiras: o Araçá e a Santa Luzia. Em Porto Belo as entrevistas serão retomadas na próxima semana. O projeto que tem por finalidade a sensibilização do homem do mar, além do encontro de realidades diversas, ouve o pescador que já tem voz, uma voz rouca, sufocada.

Laudir João de Melo, Bombinhas
Em Ganchos, atual Governador Celso Ramos, as canoas bordadas estão desaparecendo rapidamente. Neste município, os pesquisadores encontraram relatos de uma época onde se pescou muito, e relatos que dão a tonalidade de uma nostalgia que se mistura a insatisfação de regras pesqueiras confusas, e falta de apoio ao pescador. As comunidades que cederam entrevistas foram: Canto dos Ganchos, Costeira da Armação, Fazenda da Armação, Armação da Piedade, Camboa e Palmas.

Teclo Mariano Rocha, com mais de 90 anos de idade
A pesca artesanal conta com um aliado quase indomável em Tijucas, o rio que atravessa e batiza a cidade. Se as águas do rio ainda são piscosas, há quem sempre se aventurou para além da temível barra desse rio. Hoje muito assoreada a barra é, inclusive, um problema para as constantes enchentes da cidade, mas há um outro quesito muito importante: a criação de peixes. Os pescadores mais idosos, alguns como mais de 90 anos, como é o caso de Teclo Mariano Rocha e Valdeci de Souza, contam que antigamente o Rio Tijucas produzia muito mais peixes e pequenos camarões, e que, nos dias de hoje, o rio está muito raso e quase não oferece resistência ao mar. “Nós sempre dependemos do rio e do mar. Toda vida. Sem rio, o mar não produz peixe. Sem mar, o rio perde seu encanto.”, conta Teclo Mariano Rocha.

Entre os pescadores aposentados ou na ativa, que concederam entrevista ao
Pescadores na praia do Recanto dos Padres, Bombinhas
Projeto Informar, na cidade de Tijucas estão: Ademir Formento, Ademir Laudelindo da Silva, Almir Machado, Amiltom dos Santos, Dário Luiz Rocha, Edenilson da Silva, Edevaldo Pinto de Melo, Hélio de Oliveira, Ilson José Wollinger, João Sargilo Saramento, José Augostinho de Souza Rosa, José Geraldo Porcíncula, Lauro José Porcíncula, Márcio Formento, Marcio Quilter Marques, Mario Cesar Rocha, Maruzan de Souza, Murilo Wollinger de Souza, Olindino Jovito Machado Filho, Paulo Flortini, Ronaldo Gonçalves Rocha, Sebastião Manoel da Silva, Teclo Mariano Rocha, Valdeci de Souza e Zalmo Machado Nascimento.

Seu Vardinho, 85 anos, a bordo da canoa Almerinda de 150 anos
De acordo com o engenheiro de aquicultura Tiago Manenti Martins, o Informar tem essa característica de ouvir o pescador e buscar um diálogo entre pesquisa e experiência de quem pesca. “Visitar as áreas de pesca e saber desse processo por meio de estórias e relatos muito vivas na memória do pescador, nos dá a certeza de que é preciso ainda fazer muito pela pesca em nossa região.”, afirma Tiago Manenti Martins que é técnico do Comitê Tijucas-Biguaçu.

Os pesquisadores entraram em contato com as colônias de pescadores; chefia
Pedro Paulo Simão (Alves), ancestrais açorianos 
da reserva do Arvoredo, e o laboratório de elasmobrânquios (tubarões e raias) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) , além de escritórios da Epagri. O projeto finaliza as 100 entrevistas em junho, pretendendo entregar em setembro, para cada pescador, um livro e documentário com relatos dessas vivências na Baía de Tijucas.

(*) William Wollinger Brenuvida, jornalista e técnico dos Comitês Tijucas-Biguaçu, e Cubatão-Madre. É pesquisador no Projeto Informar: cações e raias.

3/02/2017

COM A PALAVRA, O PESCADOR

Elson Targino Soares foi pescador por mais de 40 anos. "É preciso combater a pesca predatória senão o peixe acaba.".

Os técnicos do Comitê Tijucas-Biguaçu levam o projeto Informar para pescadores em quatro municípios. Até o mês de junho 100 pescadores devem ser entrevistados. Projeto pretende sensibilizar para a pesca responsável, principalmente de tubarões e raias.


(*) William Wollinger Brenuvida

João Abelardo Fagundes tem mãos sujas do óleo diesel da embarcação, mãos
João Abelardo Fagundes
duras e calejadas, os pés metidos na babugem e nas areias finas e alvas da Praia da Armação da Piedade. Ele ajuda outro camarada a remendar uma rede de malha. “É pro camarão”, ele diz. Olhar perdido, frases curtas, em uma face queimada do sol. O pai tem 98 anos, e ainda caçou baleias na Armação, ele afirma. Todos os irmãos são pescadores. São muitos. Mas, a pesca está acabando vai dizer o irmão dele, Luiz Abelardo. Eles são netos do Boto, e antes que alguém ache que boto tenha alguma relação com as lendas nortistas, do Rio Amazonas, boto era o apelido de Luiz Alexandrino da Silva, marinheiro nascido no Estado do Pernambuco, e que, serviu no farolete do Anhatomirim, e no Farol da Ilha do Arvoredo. O boto era uma lenda porque nadava de pé, com uma trouxa na cabeça cruzando o canal que separa e une a Enseada da Armação e as praias da capital Florianópolis. Os Fagundes possuem uma relação ancestral com mar. A esposa do boto, a avó Etelvina Maria Bittencourt da Silva descendia de açorianos que para cá vieram para a caça das baleias. O mar é uma sina que a gente não teve como deixar, disse João Abelardo Fagundes.

As entrevistas com pescadores, em quatro municípios onde o projeto Informar
está inserido, começaram. Os pesquisadores do Comitê da Bacia Hidrográfica dos Rios Tijucas e Biguaçu, e bacias contíguas, visitaram pescadores em Tijucas, Bombinhas e Governador Celso Ramos, e já agendaram visitas em Porto Belo. Até o presente momento foram realizadas 10 entrevistas, seguindo os procedimentos das técnicas de jornalismo e em atenção às normas do projeto Informar. Um questionário com mais de 40 perguntas foi desenvolvido, e entremeadas as perguntas, as histórias vivenciadas no mar vão surgindo. Há sempre um cuidado especial na abordagem porque os pescadores são pessoas simples e bastante desconfiados, nos afirma o engenheiro de aquicultura e responsável pelo projeto Tiago Manenti Martins. Essa desconfiança se revela no fato dos próprios relatos dos entrevistados que dizem que o governo, os políticos e os pesquisadores apenas querem as informações deles, mas nada ajudam o pescador.

Cações e arraias, onde estas espécies estão afinal?
Laurentino Nascimento
O mais importante na abordagem dos pescadores é confronto, em seus discursos, com o momento presente o passado não muito distante. Com mais de 70 anos de idade, e esbanjando jovialidade, o pescador aposentado Elson Targino Soares ainda vai ao mar quando tem oportunidade. Seu Elson é citado em outras entrevistas como uma espécie de professor dos pescadores mais novos. Com mais de 40 anos de profissão, e poucos anos de escolaridade, seu Elson diz que deve tudo o que tem ao mar. Casado, pai e avô, ele viu a geração dele ter fartura no mar com muita dificuldade para enfrentar o mar, principalmente no inverno, como também alega que as facilidades tecnológicas de hoje afastaram o peixe e o camarão. Depoimento parecido tem Laurentino Nascimento, aprendiz de seu Elson, e hoje com mais de 40 anos de idade. De acordo com Laurentino, as embarcações maiores e não registradas na Capitania, aquelas que trabalham clandestinamente é que tiram o direito natural do pescador artesanal. “Como você vai chamar de artesanal uma pesca praticada com um bote de mais de 10 metros, e com motores com mais de 300 HP?”, Laurentino se queixa. Para ele, e para muitos pescadores, o fato dos cações e arraias sumirem das enseadas e até mesmo do alto-mar se revela na falta, na escassez de alimentos desses peixes.

Os entrevistados citam os nomes do cações e arraias pescados antigamente na
Luiz Abelardo Fagundes
baía e pequenas enseadas, mencionam que o Rio Ratones, em Florianópolis, hoje poluído e muito descaracterizado, sempre serviu de alimento para essas espécies de cações e arraias. Muitos mencionam, também, a importância do Rio Tijucas como uma espécie de criador ou criatório de camarões, siris, caranguejos, além de pequenas espécies de peixes. Essa opinião, porém, não é unânime. Há pescadores que não enxergam essa relação com o Rio Tijucas – geralmente aqueles mais afastados do Rio, ou que não recebem ou receberam instruções sobre a manutenção de espécies pelos rios da região.

Hoje empresário do ramo de alimentação, o pescador Maureci Klausen, o
Maureci Klausen, o Ci
popular Ci, da Fazenda Armação, ainda vai ao mar. Ele menciona que hoje é mais cômodo para o pescador tirar seu sustento em razão da tecnologia, mas que é preciso entender melhor o funcionamento do mar para que o alimento não falte na mesa da população. “Dependemos daquilo que gostamos, que é ir pro mar, e lá trazer peixe, camarão, lula. Mas, é preciso mais atenção com o pescador, com o mar.”, menciona Ci que diz que no passado recente já pescou tubarões (cações e raias) de forma artesanal, e hoje essas espécies quase não existem.

Luiz Abelardo Fagundes e o filho que segue na pesca
Tudo é devidamente documentado: filmado, gravado com aparelho de voz, fotografado, e realizado o registro em formulário com a assinatura do pescador. Cada um dos pescadores recebe uma camiseta do projeto, e se compromete a fornecer mais informações se, e quando elas vierem. Os pesquisadores buscam não concentrar as entrevistas em apenas uma localidade, exatamente para que os relatos encontrem diferentes matizes nas falas dos entrevistados. A abordagem é realizada com critérios e paciência, atendendo os requisitos do projeto e o prazo estabelecido. Em junho deste ano todas entrevistas estão devidamente compiladas, e documentadas em livro e vídeo-documentário. Até o mês de junho 100 pescadores devem ser entrevistados. O projeto que pretende sensibilizar e conscientizar para a pesca responsável, principalmente de tubarões e raias, é financiado pelo Instituto Linha D’água, de São Paulo.

(*) William Wollinger Brenuvida é jornalista. Técnico da Associação Caminho das  Águas do Tijucas.
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